- Já faz algum tempo, mas de nada adiantaria
falar sobre voluntariado,
se não contasse como e quando dei meu primeiro
passo para tal...
Eu estava com 9 anos de idade,(hoje 56) e, em
certo dia,
na escola onde eu estudava,
"Grupo Escolar "Orestes Guimarães," em São
Paulo, Capital,
mais precisamente no bairro do Pari,
estávamos todos em fila,
aguardando o sinal para entrarmos em sala de
aula,
quando o nosso Diretor, Sr. Olavo,
aproveitando que estávamos todos em formação e
quietos,
quer dizer, mais ou menos quietos....
pediu para conversar conosco.
Disse que precisaria muito de nossa ajuda,
pois queria implantar, em nossa escola,
uma sala especial.
Especial??
O que seria isso, pensei eu, e ,acredito
pensaram todos,
pois foi um ohhhhhh geral,
e claro um zum zum zum danado,
pois um olhava para o outro e se perguntava:
Sala Especial??
O que terá ela para nós??
Sr. Olavo nos pediu silêncio e explicou o que
seria essa tal sala Especial.
Nesta Sala, teríamos coleguinhas excepcionais
(hoje já se diz com Síndrome de Down)
Silêncio Total !!
Espanto também!!!
Sr. Olavo aproveitou o silêncio e continuou,
dizendo que precisaria muito de nossa ajuda e
compreensão,
para com nossos novos coleguinhas, e,
queria voluntários,
para integrarmos nossos amiguinhos à escola,
mostrando onde ficava o refeitório,
os banheiros,os bebedouros,
enfim, todas as dependências da escola..
Como o silêncio ainda predominava,
a
secretária da escola trouxe para o pátio
os integrantes desta Sala Especial....
cerca de uns 10 alunos.
Olhinhos assustados versus Olhinhos
espantados...
Foi aí que o diretor
convidou a quem tivesse vontade,
que se apresentasse para acompanhar
nossos coleguinhas para um "tour" de
reconhecimento pela escola...
Ficamos todos congelados, sem saber o que
fazer ou dizer....
Seria medo?
Preconceito?
Vergonha?
O que falariam de nós, andando, com
excepcionais?
Eles tinham o rostinho diferente, será que
sabiam falar?
O silêncio ainda continuava.
Você consegue imaginar, 250 crianças caladas?
Naquele tempo, havia um preconceito ainda
grande,
talvez falta de conhecimento.
Foi nesse momento que me coloquei no lugar
deles.
E se fosse eu, do lado de lá?
Pensei. Meu Deus,
como eu gostaria se alguém me estendesse a
mão...
Senti uma onda de calor invadir todo o meu
corpo.
Meu coração acelerou, meu olhar se nublou por
conta
das lágrimas que teimavam em aparecer.
Tomei ,então, a melhor decisão da minha vida:
Dei um passo à frente e ofereci meu braço,
para que um deles se enroscasse nele.
Ainda me emociono,
quando lembro do momento,
em que um garotinho, todo especial,
meio sem jeito,
veio ao meu encontro e enroscou seu braço no
meu.
Meu Deus, fui aceita!!
Nos meus nove anos apenas,
senti que podia e devia
fazer alguém sentir-se melhor,
menos rejeitado.... feliz.
Olhei para o diretor, e ele consentiu com a
cabeça.
Saímos então,
para conhecer sua nova escola, e,
graças a Deus,
outros colegas meus também ofereceram seus
braços.
Aquele momento foi mágico.
Ele falava com dificuldade, estava meio
atrapalhado.
Eu, por outro lado, a maior tagarela.
Mesmo assim, nos entendemos muito bem.
Ele sorria e segurava meu braço com tanta
força que até doía,
mas não me importei com a dor, pois
a satisfação de estar ajudando era muito
maior.
A alegria de poder fazer a diferença,
para aquele novo coleguinha era muito grande.
Conseguimos mostrar aos demais
que era muito bom poder dividir
com quem precisava, um pouco que fosse do
nosso amor,
do nosso carinho, nosso tempo, e,
com certeza, nossos amiguinhos especiais,
estavam nos ajudando a entender um pouco mais da vida.
Estávamos aprendendo a ser voluntários.
Claro que nem todos conseguiram estar em
contato direto,
pois não sabiam como agir,
tinham medo de errar,
mas ajudaram bastante dando seu apoio,
trazendo de casa,
livros, jogos e desenhos
para que mostrássemos aos nossos novos amigos.
Também havia os que achavam isso tudo uma grande bobeira,
e, que a obrigação era da família,
mas, era só a minoria...
Não preciso contar a felicidade do nosso
diretor, Sr. Olavo.
Era felicidade dupla, pois conseguira
implantar com sucesso
a "Sala Especial"
e despertar, em nós, o sentimento de
solidariedade.!!
E, daquele dia em diante, nunca mais deixei de
aproveitar,
quando a vida me dava a oportunidade de ser
voluntária
e auxiliar direta ou indiretamente um irmão
necessitado,
um irmão menos favorecido.
Ah!! O nome do meu Amiguinho é Otávio,
mas, com o nosso carinho, passou a ser Tavinho!
Ele era mais velho do que eu uns três anos.
Fomos amigos durante 6 anos
Íamos juntos para a Escola todos os dias e ele
enroscado, em meu braço,
até quando sua família se mudou...
Onde estará você agora, Tavinho??
Obrigada, meu amiguinho, pela oportunidade que
você me deu,
de sentir que
ser voluntária
é uma bênção dos céus.!!
De lá para cá,
sempre que Deus me apresenta a oportunidade de
auxiliar,
cá estou eu,
procurando fazer meu melhor possível
em prol de irmãos menos favorecidos
quer seja levando nas madrugadas,
um cobertor
e um leite quentinho
para aqueles que moram nas ruas,
visitando os asilos,
onde muitos irmãos mais velhos estão sozinhos;
levando nos orfanatos um pouquinho do calor de
mãe e avó que sou,
e, participando de campanhas para arrecadação
de meios
para ajudar grupos, como este que hoje faço
parte
Grupo Beija-flor
Associação Amigo Beija-flor