ORAÇÃO DO PEÃO
Odilon Ramos
Ao reponte do sol
que descamba,
o dia se aprochega
do arremate.
Pelos campos e
nos matos da
querência,
o revoar da
bicharada voltando
aos ninhos...
É hora de
recolhimento.
No rancho que há no
interior de mim
mesmo,
eu, gaúcho de fé, me
arrincono e medito.
Despindo o poncho da
vaidade e do
orgulho,
tiro o chapéu, apago
o pito e me achego
pra uma prosa com o
patrão maior.
Na sua presença, meu
sangue quente de
farrapo
se faz manso caudal.
Entrego-lhe minha
alma afoita de
alcançar lonjuras
e abrir cancha em
busca do destino.
Renuncio à minha
xucra rebeldia e me
faço
doce de boca e macio
de tranco, pra
dizer:
Gracias, patrão, por
tudo que me deste!
Por esta querência,
Senhor,
que meus ancestrais
regaram com seu
sangue
e que aprendi a amar
desde piá...
Pelos meus parceiros
desta ronda da vida,
sempre de
prontidão para me
amadrinharem na
campereada mais
custosa
ou para matearem
comigo na hora do
sossego.
Reparte com eles,
patrão, esta fé que
me deste
e este orgulho pela
minha querência.
Ajuda, patrão, a
manter acesa esta
chama.
Concede sempre ao
gaúcho a força no
braço
e o tino pra saber o
que é correto.
Dá-nos consciência
para preservar a
nossa cultura
livre da invasão dos
modismos.
Conserva a essência
e a beleza da nossa
tradição.
E, agora, com
licença, patrão,
que vou aproveitar a
olada para um dedo
de prosa
com Nossa Senhora.
Ave Maria, primeira
prenda do céu,
contigo está o
Senhor, na estância
maior.
Tu és bendita entre
todas as prendas,
e bendito é o piá
que trouxeste ao
mundo:
Jesus.
Maria, mãe de Deus e
mãe de todos nós,
roga
pela querência e
pelos gaudérios que
aqui moram,
nesta hora e no
instante da última
cavalgada.
Amém.
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Formatação Thais "beijaflor"
29.03.2009
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