
Afago, hoje, o coração inquieto, mais
desperto do que mergulhado na crença cega do
amanhã feliz, mais aberto ao confronto com
as verdades que o orgulho esconde, mais
disposto a vencer as ameaças sem
contradições, seguro apenas do que
pode, certo de que a derrota é somente um
incidente de percurso.
Hoje nada ofereço porque estou
reabastecendo as minhas
reservas, preenchendo os meus
vazios, recolhendo os cacos dos meus
cristais, limpando as marcas do vinho
derramado, apagando a chama da última
vela que ainda teima em lembrar que já
houve um dia de festa...
Hoje pode ser que eu não me
preocupe com as conseqüências dos erros
do ontem, com o sabor amargo de uma
desventura qualquer, com a cicatriz que
ainda se faz presente, embora invisível aos
cegos de plantão.
Hoje é um dia nada especial onde dizem
pouco os pingos da chuva a duelar com a minha
vidraça, o barulho dos ventos tentando uma
nova sinfonia. Nem mesmo falam comigo os
meus silêncios...
Hoje quero apenas sentir aquele outro
lado que já venci, as dores das lágrimas que
não pude chorar, o calar dos desejos que se
esconderam na renúncia e na
saudade.
Hoje quero reviver o passado para
sorrir ainda mais deste presente do
sol nas minhas manhãs, e deste brilho de
novas estrelas num céu que custei a
bordar.
Hoje quero apenas entender o tamanho
do meu sorriso.
** Cleide Canton
"É mais fácil deixar os sonhos voarem
nas asas de uma borboleta à luz do sol
do que permitir que eles naveguem nas
ondas inseguras do mar, sob o luar. Cleide
Canton"
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